Setor já movimenta cerca de R$ 80 bilhões e crescimento dos pequenos negócios acompanha procura por saúde, conveniência, tecnologia e serviços cada vez mais especializados
Ter um cachorro ou gato há algumas décadas significava uma rotina bastante diferente da encontrada hoje em muitas famílias brasileiras.
A ração ganhou versões específicas para diferentes fases da vida. Consultórios deram espaço a hospitais e centros de diagnóstico. Creches, hotéis, pet sitters, fisioterapia, cardiologia, dermatologia e outras especialidades passaram a fazer parte do vocabulário dos tutores.
E essa mudança também aparece nos números.
Dados recentes reunidos pelo Sebrae mostram um mercado pet em expansão no Brasil. Entre 2023 e 2025, a abertura de pequenos negócios ligados ao segmento cresceu 22%, resultando em mais de 41,6 mil novos empreendimentos.
O setor movimenta cerca de R$ 80 bilhões no país e vem sendo transformado por algo que vai muito além da venda de ração e acessórios: a maneira como as pessoas se relacionam com seus animais.
Conheça sete tendências que ajudam a entender essa transformação.
1. Saúde preventiva ganha mais espaço
Esperar o animal ficar doente para procurar atendimento já não é a única relação dos tutores com a Medicina Veterinária.
Check-ups, vacinação, acompanhamento nutricional, saúde bucal, controle de peso e exames preventivos passaram a ocupar mais espaço na rotina de muitas famílias.
Essa mudança também estimula a especialização dos serviços veterinários.
Hoje existem clínicas e centros com profissionais dedicados a áreas como cardiologia, dermatologia, endocrinologia, oftalmologia, ortopedia, oncologia e neurologia veterinária.
O resultado é uma Medicina Veterinária cada vez mais próxima da ideia de acompanhar o animal ao longo de toda a vida — e não apenas atender emergências.
2. Pets idosos estão criando novas necessidades
Cães e gatos envelhecem.
E quanto mais atenção existe à prevenção, alimentação e tratamento de doenças, maior também se torna a preocupação dos tutores com a qualidade de vida durante a velhice.
O mercado começa a acompanhar essa mudança.
Produtos e serviços destinados a animais idosos aparecem entre as tendências identificadas pelo Sebrae para o setor pet.
Mas essa transformação não deve ser encarada apenas como oportunidade comercial.
Um pet idoso pode precisar de adaptações dentro de casa, controle de peso, acompanhamento veterinário mais frequente e atenção a mudanças de comportamento, mobilidade, visão, audição e alimentação.
Envelhecer faz parte da vida do animal.
A maneira como a família se prepara para essa fase pode fazer grande diferença em seu bem-estar.
3. O mercado dos gatos está crescendo e se especializando
Durante muito tempo, boa parte dos produtos e serviços do universo pet foi pensada principalmente para cães.
Isso está mudando.
O crescimento da população de gatos e a maior compreensão sobre as necessidades específicas dos felinos estão abrindo espaço para serviços e produtos direcionados a eles.
E existe um motivo importante para essa especialização.
Gato não é um cachorro pequeno.
Felinos apresentam comportamento, necessidades ambientais, alimentação, manejo e respostas ao estresse diferentes.
Até a experiência dentro de uma clínica veterinária pode exigir adaptações.
Ambientes mais tranquilos, manejo adequado, caixas de transporte apropriadas e redução de estímulos estressantes são exemplos de cuidados que vêm ganhando importância.
4. Creche, hotel e pet sitter deixaram de ser serviços incomuns
Quem cuida do cachorro durante uma viagem?
E quando o tutor passa muitas horas fora de casa?
Perguntas como essas ajudaram a criar espaço para um segmento que cresceu dentro do mercado pet: serviços de hospedagem e cuidados temporários.
Hotéis, creches, pet sitters e atendimento domiciliar passaram a fazer parte das alternativas encontradas pelas famílias.
Só na cidade de São Paulo, dados divulgados pelo Sebrae-SP neste mês apontam mais de 1,5 mil negócios classificados como alojamento de animais domésticos.
Mas o crescimento também exige atenção dos tutores.
Preço e aparência do estabelecimento não devem ser os únicos critérios de escolha.
Antes de deixar um animal em uma creche ou hotel, é importante conhecer protocolos de segurança, supervisão, estrutura, exigências sanitárias, manejo dos animais e procedimentos adotados em emergências.
5. Tecnologia chegou definitivamente ao mundo pet
O celular do tutor também está entrando na rotina do animal.
Aplicativos, identificação eletrônica, dispositivos de localização, câmeras domésticas, alimentadores automáticos e diferentes ferramentas digitais mostram como a tecnologia passou a participar dos cuidados cotidianos.
Na Medicina Veterinária, equipamentos de diagnóstico e novas tecnologias também ampliaram possibilidades de investigação e acompanhamento.
Mas tecnologia deve ser entendida como ferramenta.
Uma câmera pode ajudar o tutor a observar o animal quando está fora.
Ela não substitui companhia, interação e cuidados.
Um alimentador automático pode ser útil em determinadas rotinas.
Ele não substitui a avaliação nutricional quando existe um problema de saúde.
Tecnologia pode facilitar o cuidado, mas não deve substituir o cuidado.
6. Conveniência virou parte importante da decisão
Delivery de produtos pet, compras recorrentes, atendimento em domicílio e assinaturas são exemplos de uma transformação que também ocorre em outros setores da economia.
O tutor quer cuidar do animal, mas também procura soluções que funcionem dentro de sua rotina.
É nesse ponto que a conveniência ganha espaço.
Ração chegando periodicamente em casa, banho e tosa com agendamento digital e serviços domiciliares são exemplos dessa mudança.
Para o mercado, isso representa uma oportunidade.
Para o tutor, representa praticidade.
Mas a facilidade não elimina a necessidade de avaliar qualidade, procedência e adequação do produto ou serviço ao animal.
7. O pet passou a influenciar decisões da família
Talvez essa seja a mudança que explique todas as outras.
Para milhões de brasileiros, cães e gatos deixaram de ocupar apenas o quintal e passaram a participar diretamente da rotina familiar.
Isso influencia decisões sobre viagens, moradia, lazer, orçamento e consumo.
Uma família pode procurar um hotel que aceite animais.
Pode escolher um imóvel pensando no cachorro.
Pode instalar telas nas janelas por causa dos gatos.
Pode organizar férias considerando quem ficará responsável pelos pets.
E pode destinar uma parcela fixa do orçamento aos cuidados veterinários, alimentação e bem-estar.
Quando o animal passa a participar dessas decisões, todo um mercado acompanha essa transformação.
Mais negócios também significam mais responsabilidade
O crescimento do setor pet traz oportunidades econômicas, mas existe uma diferença fundamental entre esse mercado e muitos outros.
O consumidor final é um ser vivo.
Uma decisão inadequada não representa apenas uma compra ruim.
Dependendo do serviço, pode afetar diretamente a saúde, segurança ou bem-estar de um animal.
Por isso, o crescimento do mercado precisa ser acompanhado de profissionalização, qualificação e responsabilidade.
Isso vale especialmente para serviços que envolvem saúde, manejo, hospedagem, treinamento e permanência de animais sob responsabilidade de terceiros.
Nem tudo que é vendido como “bem-estar” é necessário
A expansão do mercado também exige senso crítico dos tutores.
Um produto ser desenvolvido para pets não significa automaticamente que o animal precisa dele.
Antes de comprar, vale fazer uma pergunta simples:
isso melhora realmente a saúde, segurança ou qualidade de vida do meu animal ou apenas atende a uma vontade humana?
Cama confortável, alimentação adequada, atendimento veterinário, ambiente seguro, atividade física, enriquecimento ambiental e interação social apropriada são necessidades reais.
Já produtos apresentados como indispensáveis devem ser avaliados com cuidado.
Cuidar melhor não significa necessariamente comprar mais.
Quanto os brasileiros gastam?
Uma pesquisa divulgada pelo Sebrae-SP ajuda a dimensionar a frequência desse consumo.
Entre os consumidores pesquisados, a maior parcela declarou gastar entre R$ 101 e R$ 300 por mês em pet shops, enquanto 67% realizam compras quinzenalmente ou mensalmente.
É um comportamento que ajuda a explicar por que o segmento desperta cada vez mais interesse de pequenos empreendedores.
Em uma região analisada pelo Sebrae-SP, o Alto Tietê , o número de pequenos negócios ligados ao mercado pet passou de 763 em 2018 para 2.323 em julho de 2026.
Um crescimento de 204%.
Embora esse percentual seja regional e não possa ser aplicado a todo o Brasil, ele funciona como um retrato da velocidade da expansão em determinadas partes do país.
O futuro do mercado pet também depende de como tratamos os animais
Os números mostram um setor economicamente forte.
Mas existe uma transformação ainda mais interessante por trás deles.
A expansão de clínicas especializadas, serviços para gatos, cuidados geriátricos, hotéis, creches, tecnologias e produtos de prevenção acontece porque a própria relação entre pessoas e animais mudou.
E existe uma diferença importante entre simplesmente gastar mais e cuidar melhor.
O futuro do universo pet não deveria ser medido apenas pelo número de produtos vendidos.
Também deveria ser medido por animais vivendo mais, com saúde, segurança e qualidade de vida.
Porque, no fim das contas, a evolução mais importante do mercado pet não acontece nas prateleiras.
Acontece na maneira como tratamos os animais que vivem conosco.




