Estudo com quase 900 cães mostra que animais de grande porte apresentam envelhecimento molecular mais acelerado; alterações em regiões do DNA podem ajudar a explicar a menor longevidade
Um dogue alemão e um chihuahua pertencem à mesma espécie. Mas existe uma diferença intrigante entre eles: em geral, cães maiores vivem menos do que cães pequenos.
Agora, cientistas encontraram uma importante pista para explicar por quê.
Um novo estudo publicado na revista Science mostra que cães de maior porte apresentam sinais de envelhecimento mais rápido em nível molecular. A descoberta ganhou repercussão internacional e foi destacada nesta semana pela Reuters e, hoje, pela imprensa brasileira.
O que acontece no DNA dos cães grandes?
Pesquisadores liderados pela Arizona State University analisaram 1.640 amostras de sangue de 894 cães, participantes do Dog Aging Project.
O foco estava na chamada metilação do DNA — modificações químicas que ajudam a controlar a atividade dos genes e que também mudam conforme o organismo envelhece.
A partir dessas alterações, os cientistas desenvolveram uma espécie de “relógio epigenético”, capaz de estimar a idade biológica dos animais.
Foi aí que apareceu uma diferença importante: cães maiores envelheciam molecularmente mais rápido que os menores.
Os chamados “genes saltadores” chamaram atenção
Uma das descobertas mais curiosas envolve regiões do DNA conhecidas como elementos transponíveis, apelidadas de “genes saltadores” porque determinadas sequências conseguem se copiar e se inserir em outros pontos do genoma.
Normalmente, mecanismos do organismo ajudam a manter essa atividade sob controle.
Com o envelhecimento, porém, parte desse controle pode diminuir. E o estudo encontrou uma perda mais acelerada das marcas reguladoras em cães grandes, especialmente em regiões associadas a elementos chamados LINE1.
Nos cães de porte gigante, a perda anual de metilação nessas regiões foi aproximadamente 35% maior do que nos cães pequenos.
Isso pode contribuir para instabilidade no DNA e está relacionado a processos associados ao envelhecimento e a doenças.
Então um cachorro grande envelhece mais rápido?
Em termos moleculares, os resultados indicam que sim.
Isso ajuda a explicar um paradoxo interessante.
Quando comparamos espécies diferentes, animais maiores frequentemente vivem mais: uma baleia, por exemplo, pode viver muito mais do que um pequeno roedor.
Mas dentro da espécie canina ocorre o contrário. Raças grandes e gigantes tendem a crescer rapidamente e apresentar expectativa de vida menor que cães pequenos.
O novo trabalho oferece uma explicação biológica para parte dessa diferença.
O tamanho não é o único fator
O estudo também encontrou diferenças relacionadas ao sexo.
Os pesquisadores observaram que cães machos apresentaram envelhecimento molecular mais acelerado do que as fêmeas, embora os mecanismos associados ao sexo sejam diferentes daqueles relacionados ao tamanho corporal.
Isso não significa, porém, que seja possível olhar para o porte ou sexo de um cachorro e determinar exatamente quanto ele viverá.
Raça, genética individual, alimentação, peso corporal, doenças, atividade física, ambiente e acesso a cuidados veterinários também influenciam a saúde e a longevidade.
A descoberta pode ajudar os próprios cães
Entender como os cães envelhecem não serve apenas para explicar por que algumas raças vivem menos.
Os pesquisadores esperam que identificar os mecanismos envolvidos no envelhecimento possa, no futuro, contribuir para estratégias capazes de prolongar o período de vida saudável dos animais.
Ainda há uma questão importante em aberto: os cientistas não sabem se as alterações observadas nos “genes saltadores” são uma causa do envelhecimento ou uma consequência dele. Novos estudos serão necessários.
Por enquanto, a descoberta ajuda a responder uma pergunta antiga dos tutores:
cães grandes não parecem simplesmente chegar à velhice mais cedo o próprio organismo deles apresenta sinais de que o relógio biológico está avançando mais rapidamente.




