Mesmo após dez anos sem casos humanos transmitidos pelas variantes típicas de cães no Brasil, circulação do vírus entre animais silvestres mantém o alerta e reforça a importância da vacinação dos pets
O Brasil alcançou uma marca importante no combate à raiva: em 2026, o país completa dez anos sem registrar casos de raiva humana transmitida pelas variantes do vírus típicas de cães. A conquista, no entanto, não significa que a doença tenha desaparecido e acontecimentos recentes ajudam a mostrar por que tutores não devem descuidar da vacinação de seus animais.
O vírus da raiva continua circulando entre animais silvestres, especialmente morcegos, e pode chegar a cães e gatos. Por isso, mesmo em um cenário de controle da chamada raiva urbana, a vacinação dos animais de companhia continua sendo uma das principais formas de proteção.
Caso recente em cão teve variante associada a morcegos
Em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, um caso de raiva em um cão doméstico mobilizou as autoridades sanitárias em agosto.
O animal apresentou sintomas neurológicos e morreu. Após a confirmação da doença, equipes do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) e da Vigilância Epidemiológica realizaram ações de bloqueio na região do Solário da Mantiqueira.
Posteriormente, uma análise do Instituto Pasteur identificou que o vírus encontrado no animal pertencia a uma variante associada a morcegos.
A informação é especialmente importante porque ajuda a entender o cenário atual da raiva no país: controlar a transmissão pelas variantes típicas dos cães não elimina o risco de cães e gatos entrarem em contato com variantes do vírus que circulam entre animais silvestres.
Dez anos sem transmissão humana pelas variantes de cães
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil completa em 2026 dez anos sem registrar casos de raiva humana transmitida pelas variantes caninas AgV1 e AgV2.
O resultado está relacionado, entre outros fatores, às campanhas de vacinação, à vigilância epidemiológica e às medidas de prevenção adotadas ao longo das últimas décadas.
Mas o próprio Ministério alerta que o vírus continua circulando entre animais silvestres, principalmente morcegos, primatas e raposas.
Entre 2016 e 2026, foram confirmados 37 casos de raiva humana no Brasil, todos associados a variantes silvestres do vírus. Os morcegos estiveram envolvidos em 22 desses casos.
Isso mostra uma mudança importante no perfil da doença no país: o ciclo urbano foi fortemente reduzido, mas o ciclo silvestre continua exigindo vigilância.
Cães e gatos ainda podem ser infectados
Embora os cães tenham sido historicamente os principais transmissores da raiva em ambientes urbanos, atualmente cães e gatos podem se infectar ao entrar em contato com variantes provenientes de animais silvestres.
Os gatos merecem atenção especial porque seu comportamento de caça pode aumentar a possibilidade de contato com morcegos.
Um morcego encontrado caído no quintal, dentro de casa ou apresentando comportamento incomum, portanto, não deve ser manipulado pelo tutor nem pelo animal.
A recomendação é impedir que cães e gatos tenham contato com o morcego e procurar o serviço de zoonoses ou a autoridade sanitária responsável no município para receber orientação.
Vacinação continua sendo fundamental
A vacinação antirrábica anual de cães e gatos permanece uma das principais ferramentas de prevenção.
Dados do Ministério da Saúde mostram que a cobertura vacinal brasileira na campanha antirrábica de cães e gatos chegou a 78% em 2025.
Manter a vacinação atualizada protege o próprio animal e também contribui para a proteção das pessoas que convivem com ele.
A raiva é uma zoonose viral extremamente grave. Depois que os sintomas aparecem, a doença apresenta letalidade próxima de 100%.
Por isso, prevenção e rapidez diante de uma possível exposição são fundamentais.
E se uma pessoa for mordida ou arranhada?
Em caso de mordida, arranhão ou outro contato de risco com saliva de um mamífero suspeito, a orientação do Ministério da Saúde é procurar imediatamente um serviço de saúde — mesmo quando o ferimento parece pequeno.
O profissional avaliará a situação e decidirá se há necessidade de profilaxia antirrábica, que pode envolver vacina e, dependendo do caso, soro ou imunoglobulina.
Também não se deve tocar diretamente em morcegos ou outros animais silvestres encontrados mortos, caídos ou apresentando comportamento incomum.
Prevenção continua sendo a melhor proteção
Os avanços conquistados pelo Brasil mostram que a vacinação e a vigilância funcionam. Ao mesmo tempo, a presença do vírus no ambiente silvestre significa que a atenção precisa continuar.
Para quem convive com cães e gatos, a recomendação é simples: verificar se a vacinação antirrábica está atualizada, evitar o contato dos pets com animais silvestres e procurar orientação rapidamente diante de qualquer situação suspeita.
A raiva pode ser uma doença rara em muitas regiões, mas sua gravidade faz com que prevenção nunca seja um cuidado dispensável.
FONTES
Ministério da Saúde — Vigilância da Raiva
Informações sobre raiva humana e animal, circulação de variantes silvestres, vacinação de cães e gatos e orientações após exposições de risco.
Ministério da Saúde — Brasil completa 10 anos sem raiva humana transmitida por cães
Publicação de 21 de agosto de 2026 sobre a situação epidemiológica e as ações de vacinação e vigilância.
Prefeitura de São João da Boa Vista (SP)
Informações oficiais sobre o caso de raiva confirmado em cão no bairro Solário da Mantiqueira e as medidas de bloqueio adotadas pelas autoridades sanitárias.
Prefeitura de São João da Boa Vista / Instituto Pasteur
Confirmação de que a variante identificada no cão era associada a morcegos.




