Estudo com 310 gatos identifica diferentes perfis de personalidade e revela que alguns felinos podem demonstrar medo e curiosidade ao mesmo tempo, comportamento semelhante ao observado em bebês humanos

Você recebe uma visita em casa e seu gato desaparece. Minutos depois, ele surge discretamente, observa a pessoa desconhecida e até tenta se aproximar, mas recua ao menor movimento.

Esse comportamento, bastante familiar para muitos tutores, pode ser mais complexo do que parece.

Uma pesquisa publicada em 4 de novembro de 2026, na revista científica PLOS ONE, identificou que alguns gatos apresentam uma combinação de medo e curiosidade semelhante à timidez observada em bebês humanos.

O estudo foi conduzido por pesquisadores japoneses, liderados por Madoka Hattori, da Universidade de Kyoto, e analisou informações sobre o comportamento de 310 gatos domésticos.

Nem todo gato medroso quer ficar longe

Quando um gato se esconde diante de uma pessoa desconhecida, é comum interpretar a reação como medo ou falta de sociabilidade.

Mas os pesquisadores descobriram que nem sempre essas características aparecem juntas.

Alguns animais demonstram receio diante de situações novas, mas continuam interessados em investigar o ambiente, os objetos ou as pessoas que despertaram essa insegurança.

É justamente essa combinação que chamou a atenção dos cientistas.

Em bebês humanos, a timidez também pode envolver sentimentos aparentemente contraditórios. A criança demonstra interesse em se aproximar de alguém desconhecido, mas sente medo ao mesmo tempo.

Segundo os pesquisadores, um padrão semelhante pode ocorrer em determinados gatos.

Pesquisa identificou quatro perfis de comportamento

Para investigar essa relação, os cientistas adaptaram questionários utilizados em estudos sobre o temperamento de bebês humanos.

Os tutores responderam perguntas sobre as reações dos gatos diante de pessoas desconhecidas, brinquedos novos, ambientes diferentes e outras situações.

A análise identificou quatro perfis principais:

  1. Muito sociáveis: gatos com pouco medo e grande disposição para se aproximar.
  2. Sociáveis: animais com pouco medo, mas com tendência moderada de aproximação.
  3. Medrosos: gatos que demonstram receio e preferem evitar situações desconhecidas.
  4. Tímidos e curiosos: felinos que sentem medo, mas ainda apresentam vontade de se aproximar.

O quarto grupo foi considerado especialmente interessante porque reúne características semelhantes às observadas na timidez infantil.

Machos e gatos nascidos nas ruas chamaram atenção

Outro resultado da pesquisa foi a maior presença desse padrão de timidez entre gatos machos e animais que nasceram nas ruas.

Isso não significa que todos os gatos com essas características sejam tímidos ou que as fêmeas não possam apresentar o mesmo comportamento.

Os resultados indicam uma associação observada nos grupos estudados, mas ainda são necessárias novas pesquisas para compreender melhor essas diferenças.

Os autores também destacam que os dados foram obtidos por questionários respondidos pelos tutores. Portanto, os perfis identificados não devem ser tratados como classificações definitivas da personalidade de todos os gatos.

O que isso muda na convivência com os felinos?

A descoberta reforça uma orientação importante: respeitar o tempo e a personalidade de cada gato.

Um felino que observa uma visita de longe não necessariamente rejeita aquela pessoa. Ele pode estar interessado em conhecê-la, mas ainda não se sentir seguro.

Por isso, forçar a aproximação, pegar o animal no colo ou retirá-lo do esconderijo pode aumentar seu desconforto.

O ideal é permitir que o gato tenha um espaço seguro e possa decidir quando deseja se aproximar.

Essa compreensão também pode ajudar abrigos e organizações de proteção animal a avaliar melhor o comportamento de gatos disponíveis para adoção.

Um animal reservado durante o primeiro contato não necessariamente continuará distante depois de se adaptar à nova família.

Cada gato tem seu próprio jeito de demonstrar interesse

Os pesquisadores esperam que a descoberta ajude a superar classificações muito simples, como considerar todos os gatos apenas amigáveis ou ariscos.

A personalidade felina envolve diferentes combinações de medo, curiosidade e disposição para interagir.

Por isso, aquele gato que foge quando a visita chega, mas logo aparece para observar tudo de perto, pode estar demonstrando justamente essa mistura de sentimentos.

A conclusão mais importante é que sentir medo não significa, necessariamente, perder a vontade de explorar ou interagir.

E compreender essa diferença pode melhorar a maneira como as pessoas convivem e se relacionam com seus gatos.

Fontes

  • PLOS ONE, 4/11/2026. Exploration of complex shyness and the relationship between fear and approach behaviors in domestic cats. brightsurf.com
  • Public Library of Science, 4/11/2026. Divulgação dos resultados da pesquisa. phys.org
  • Universidade de Kyoto. Pesquisa de Madoka Hattori e colaboradores sobre timidez e comportamento felino. scimex.org

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